Recebi um livro pelo correios, simples, capa minimalista, verde com um retrato antigo desenhado na capa, intitulado " Os escritos de Blanca Mares" de Roberto Marcos, um escritor amigo aqui de Minas Gerais.
Uma capa que me interessaria à primeira vista, trazendo uma memória afetiva, coisas de quem coleciona memórias.
Nas primeiras páginas me encontro mergulhada num romance , uma chuva que não passa, um suicídio já no primeiro capítulo, logo pensei: " Vou chorar horrores", mas a história te envolve e você se rende... Lá vão 172 páginas de curiosidade e apego ao personagem "O velho Tussa", que mais parece aquele tio da família que com quem a gente senta , conversa e damos boas risadas, sim também aquele tio louco típico da cidade pequena, que é justamente o seu tio.
A sua memória ficou no passado, um amor transcendental, ele escreve cartas para sua esposa, que por algum motivo a leva a uma cidade no sul da Bahia, mas há um detalhe que nos faz fervilhar a mente, ela está morta, mas ele acredita que ela está viva, e passa anos escrevendo para ela, enviando-as por intermédio de uma ferrovia inativa, no museu dos ferroviários... Escritos que nunca chegaram ao seu destinatário. A cidade também compra a ideia, as cenas são descritivas, uma literatura sensorial e íntima, texto poético e com trechos cômicos.
Imagine uma boa conversa com uma senhorinha numa janela desses casarões antigos, você entra , toma café e come pão de queijo, é essa sensação que temos quando lemos essa obra espetacular, o narrador nos faz inteirar às rotinas da cidade, uma pitada de regionalismo e pronto, você não se desgruda do livro, e no fim, você descobre que a vida é como uma colcha de retalhos onde todos nós costuramos juntos, nos amontoamos dentro uns dos outros, há conexões que passam por despercebidas e as nossas histórias pessoais , são pessoais para todos nós.
A cumplicidade, a amizade, as travessuras de estudantes e até os desgovernos são retratados no romance como se fôssemos moradores dessa pequena cidade acalorada e chuvosa, uma chuva que une a todos nós em tempos de enchentes, metáforas que nos acolhem com reflexões , palavras que fazem tic tac dentro de nós, talvez o autor queira que pensemos nos personagens com se fossem nossos tios, vizinhos, tias, irmãs, filhos ou até nós mesmos quando nos prendemos à um passado e nos afeiçoamos à uma mentira porque nos parecem mais fácil de lidar com ela do que com a morte ou desprezo do outro, que na obra essa mentira é vívida e materializada nesse amor imortalizado em escritos, é provável que todo esse afeto traga uma certa acomodação.
Na verdade, essa obra nos entrega pensamentos muito profundos, um passado que temos saudades mas que a vida nos leva à outros lugares dos quais não queremos confrontar, mas também nos deparando com personagens que estão no nosso dia-a-dia, que estão nas esquinas, nas janelas trancadas, nas varandas que já foram mais habitáveis, essas memórias afetivas permeiam o nossa mente.
A morte pode ser devastadora, sentir a falta de alguém trava alguns novos caminhos e nos mantém presos ao passado, algumas vezes matamos dentro de nós a esperança e deixamos o medo de vivenciar a verdade nos prive de um futuro e evitamos vivenciar tantas outras aventuras, estarmos presos na saudade descarta a possibilidade de uma boa história.
Deixemos o passado apenas para habitar as nossas memórias, deixemos que a vida nos responda com alegria de estarmos com as pessoas que amamos mesmo que outras tenham nos deixado, sendo por meio de uma morte ou simplesmente apenas por terem se afastado de nós.
A vida é tão linda vista de perto, é importante nos colocarmos num lugar de protagonistas, nem sempre a vida nos dará o caminho mais fácil mas facilita acreditarmos que o mundo têm outros horizontes a medida que caminhamos.
Essa obra me fez mergulhar nas minhas memórias e perceber que o passado é apenas uma porta aberta mas podemos nos afeiçoamos às dores mal curadas, o passado deve apenas nos servir de aprendizado e causa do que vivemos no agora.
A alegria é a coragem de seguir a diante , sem medo e sem censuras, porque no fim de todas as histórias que vivemos, somos nós que decidimos a nossa história e de como ela termina, e será ela termina???

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