Acordei de sobressalto no meio da tarde, as águas do rio sobem rapidamente, já havia me tirado o sono dias anteriores pelo motivo que me encontro agora.
Em total desespero eu me olho diante da situação e não choro, eu apenas me pego num gesto simples de quem já sabe que vai morrer, eu oro!!!
Eu sei que no meu último momento de vida, eu vou pensar em tudo que eu vivi até aqui, me descasco em todas as minhas camadas, e só encontro o desespero.
Não há malas que eu possa carregar, nem documentos, apenas um pingo de fé no que vou encontrar depois daqui.
Não é uma situação em que eu possa pedir socorro e alguém milagrosamente aparece e me tire daqui, estou aqui pela minha própria vontade, eu moro aqui.
O rio continua a inundar a minha casa, que não fica numa colina junto com os prédios de luxo que cercam o lado oeste da cidade, é bem próximo ao rio, bem na marem direita desse rio, foi onde eu vivi boa parte da minha vida, até o final dela.
Desta vez o rio está mais violento, as chuvas não cessaram por duas semanas mas mesmo assim, não estava tão revolto como agora, e a minha esperança é olhar para o céu e buscar as estrelas ou uma faísca do sol, mas agora, o que eu vejo é senão todos os meus sonhos serem levados na correnteza ou submergirem, não que eu esteja calma, eu só aceito o fim.
Dizem que quando escalamos uma montanha compreendemos melhor a vida, o nosso olhar muda, uma nova percepção , uma nova roupagem, mas será possível que alguém que está no alto dessa montanha consegue me ver agora?
Arrisco um grito seco, sem a menor vontade de me debater ou criar uma expectativa contrária , eu simplesmente me entrego, afinal, não há muito o que fazer quando suas últimas horas é justamente, a hora de morrer.
Não, eu não estou sendo carregada pela negatividade, as portas e janelas estão fechadas, o telhado não chego nem perto de alcançar, eu sei que por mais que eu suba nos móveis , eu não vou conseguir sair daqui.
Meus pensamentos atravessam o desespero, me apego às lembranças, elas se agigantam nesse momento, amontoam dentro de mim, talvez seja porque eu não queria estar vivendo isso.
A minha infância foi entre o rio e as colinas que hoje habitam prédios e casas luxuosas, não muito diferente da minha, mas gosto de pensar que a vida me presenteou com a natureza, não poderia existir um lugar tão belo para viver.
Sim, vivo aqui há muito tempo, aprendi a colher os frutos do meu trabalho, aprender a tecer e viver com simplicidade não é tão ruim assim quando se agradece pelo que temos e ansiamos frutos melhores sem pressa e sem grandes ambições, eu apenas aprendi a viver aqui...
Subir em árvores, colher as flores frescas e me transportar entre as escritas , as livrarias e universidades, estudei muito , e com isso, também aprendi a ensinar...Aonde estariam meus alunos agora?
Agora..
As águas entram pelas janelas , atravessam as portas, tudo que eu tinha, eu vi correndo sorrindo entre as correntezas, elas anseiam a liberdade assim como eu, mas eu sendo um ser vivo, teimo em encontrar um lugar onde possa assentar e pedir a Deus que eu morra bem rápido.
Mas Deus, não me ouviu, é o que eu acredito agora.
Eu vejo através da janela, alguém gritando socorro, fecho os meus olhos, ela se foi, a minha oração, foi a última que ela ouviu, não posso pensar em outra coisa agora.
Pronto, a água já cobriu as janelas, são os últimos fios de luz, o meu celular ainda sobrevive com alguns minutos de bateria.
Eu não sei como isso pôde acontecer, o rio não estava tão cheio, morar por aqui tem suas vantagens, não ouvimos as buzinas e nem a correria das cidades maiores, apenas nos contentamos em ouvir pássaros, grilos, cigarras, e os bichos que queiram falar como sabem falar.
As chuvas que corriam , não chegavam a tanto, mas Deus arruma suas razões que não teimo em entender, afinal, Deus sabe bem como me sinto, então, não vou me ocupar de contrariar a Ele.
A violência das águas assombram o meu espírito, eu já não consigo alcançar o último degrau da escada que me leva ao ponto mais alto. São poucos minutos depois de ter acordado...
De novo uma onda violenta de águas turvas, barrentas, e grossas, batem na parede... é o meu ponto final.
É um sonho... Poucos minutos de uma tempestade que assombram um sonho, é um pesadelo..
Quantos de nós vivemos os nossos desastres pessoais, mergulhamos em águas profundas tentando nos entender intimamente, nos agarrando à memórias, para depois entender que tudo que vivemos são pontos de nossa história de eternidades.
Nos vemos no ponto mais alto de nossas esperanças, depois mergulhamos em lamaçais e depois sobrevivemos para atingirmos o ponto mais alto de nossa consciência, é bem comum termos que vivenciarmos novamente para entendermos a outra parte da história que ainda não emergiu.
A vida são ondas que vem e se vão e a medida que nos aperfeiçoamos, nos tornamos mais humanos, é a tempestade íntima que nos fazem pensar em profundidades e em que ponto estamos prontos às mudanças.
O desespero de tão sobreviver a mais uma tempestade, o desprendimento à coisas supérfluas é o que nos mantém secos em tempos de tempestades.
O tempo parece rápido quando não conseguimos focar no que realmente importa, um amor, amores, vários amores ,nos colocamos frente a frente com o passado, e tentamos retê-lo poque ainda não aprendemos com ele e então, o presente fica paralisado nesse tempo todo, o futuro simplesmente existe apenas nas mentes, nada mais.
Quando foi a última vez que se colocou diante de uma barca, num lugar tranquilo em sua mente , para poder pensar ?
É preciso rotina para meditar, é preciso respirar um pouco mais fundo antes de afogar, é preciso nos aprofundarmos para cultivar a coragem e nos encontrarmos em nós mesmos.
Tantos outros pesadelos vivemos sem termos dormido?
Pensemos na profundidade de nossos espíritos, de quanto ainda temos que aprender para abrir as portas de uma casa a beira de uma enchente para sobrevivermos?
Sobrevivemos quando marcamos dentro de nós a esperança e a fé, sobrevivemos quando não nos acomodamos , quando deixamos que a vida nos mostre o caminho sem desespero e atentos aos sinais.
A vida é linda demais para nos apegarmos às coisas, sentimentos que nos prender à fatos que não vão mudar de lugar, apenas precisamos aprender que tudo e todos fazem parte de todos nós, que tudo muda porque tudo se movimenta e vibra, que sobrevivemos por amor.
Quando em algum momento viver um momento difícil lembre-se que não há muito tempo para decidir se quer morrer ou viver, apenas viva com o que tem de melhor no coração, a vida vai te levar com leveza para lugares que precisam de sua atenção e cuidado.
Se tiver de perder tempo, que seja para sentir, se aprofundar no que está vivendo sem se apegar ao egoísmo que nos cercam, a grande verdade é que a vida é tão linda para ser desperdiçada com coisas que só te levam para lugares ruins, viva com intensidade os momentos bons e ruins, aprenda com eles, reflita sobre eles, porque a vida tem seus pontos finais e sempre há outras histórias para contar.