1 -Quem é você além da escritora, e como a literatura entrou na sua vida? (Nesta primeira pergunta, me fala sua origem e se vc hoje mora em Sabará, se não me fala quela seu envolvimento aqui na nossa cidade, e fala também sobre o convite para participar da Flis)
Marina: - Além da escritora, eu sou a mãe, sou a filha , irmã e amiga.
Sou a mulher que se viu escrevendo diários para aliviar a mente que vive cheia de histórias, memórias e filosofias.
A literatura é a arte de dizer aos outros quem somos de um jeito criativo. A literatura me veio com exemplos de meus pais, que me ensinaram a ler , escrever, e assim como eles, aprendi a entender o mundo através da leitura.1- Eu sou de Araxá, triângulo mineiro, moro em Sabará há um pouco mais de vinte anos, tenho cinco filhos , a minha formação é em educação infantil, fiz letras em Araxá e vim para cá para estudar, e por aqui eu fiquei, fiz teatro com Chiquinho da TV muro, com a Troupe Pirulinga, fiz trabalhos voluntários com crianças e adolescentes como contadora de história e teatro... A cidade me abraçou, e eu recebi esse acolhimento, morar aqui é reconhecer a história de Minas Gerais, estar numa cidade histórica como Sabará é estar diante da nossa história enquanto nação construída com muito trabalho e luta de quem ergueu igrejas, ruas de pedras, e casarões nos mostrando o quanto devemos agradecer a nossa ancestralidade... Somos frutos de tudo o que eles construíram. Participar da Flis, é saber que minha escrita alcançou leitores, a Flis é um evento brilhante em Sabará, que abraça a cultura e a literatura, estar aqui, é estar entre os escritores que também amamos e que se conectam com essa missão solitária de escrever, porque escrever é um ato solitária mas que trás para todos nós reflexões coletivas.
2 - Como nasceu “Um Dia de Fada”? Houve uma história, uma experiência ou um sentimento específico que despertou em você a vontade de escrever esse livro?
Marina: - Um dia de fada, se tornou a história de muitas pessoas, porque cada um se vê num personagem a partir do momento que há uma conexão com sua própria história, comigo não foi diferente como escritora, eu me vejo nos personagens, e a história se desenvolveu a partir da minha vivência e das pessoas que convivem comigo. A literatura tem essa troca de experiências que buscamos nos personagens...A história nasceu enquanto trabalhava num projeto na educação infantil, eu vi que algumas crianças viviam a violência e tinham a necessidade de se expressarem e a história seria uma chave que pudesse abrir essa porta entre a fantasia e a realidade.
3 - Por que você escolheu o universo das fadas e da fantasia para conversar com as crianças sobre um assunto tão difícil como a violência doméstica?
Marina: - A literatura infantil tem uma linguagem de fácil percepção, ela é um abraço para as crianças em qualquer momento de suas vidas, através de histórias que as façam perceber o mundo , elas se expressam e isso nos ajuda na sua educação, e a escolha de um conto de fadas foi como usar essa chave mágica para esse cuidado, a violência como ela sendo estrutural, é difícil acessar sem uma linguagem que façam as crianças compreenderem e se expressarem. A literatura infantil é uma ferramenta importante para fazer nossas crianças refletirem e proporciona boas memórias, a infância é a fase em que nossas memórias se tornam parte de quem seremos na fase adulta, então ,falar sobre as dores , não é tão fácil , mas o ato de usar uma linguagem fantástica ajuda nesse processo de "falar" com o coração.
4 - A relação entre a mãe fada e Cila, a fada aprendiz, é marcada pelo amor e pela união. O que essa relação representa para você dentro da história?
Marina: -A relação de amor maternal na história , esse amor incondicional nos ajuda a entender a nossa própria história e nossos próprios pensamentos e sentimentos, esse amor é importante para que nós nos sentirmos pertencentes no nosso mundo. Essa relação entre mãe e filha traz uma cumplicidade feminina, esse entendimento mútuo de sentimentos, emoções muito similares, esses sentimentos nos fazem sentir esse pertencimento e confiança nessa relação. No meu olhar essa relação é importante para que ambas as personagens possam sentir a força que cada uma possui, que não estamos sós em nossas lutas, que o cuidado uns com os outros nos fazem evoluir enquanto seres humanos.
5 - Cila precisa encontrar coragem para tentar salvar a própria mãe de uma “prisão mágica”. O que essa prisão simboliza e que mensagem você espera que a criança compreenda nessa jornada?
Marina: - A prisão mágica é esse isolamento.
A prisão pode ser também simbolizada como uma violência psicológica, o fato de não olharmos para nós mesmos com honestidade, é como uma mutilação íntima que fazemos a nós mesmos e com os outros, a prisão nos impede de nos vermos e vermos os outros , porque é uma barreira invisível.
Na história a criança percebe que a prisão impede a mãe de agir, e que só o amor pode ser capaz de ajudar nesse conflito...E a criança ele entende o quanto o amor nos ajuda a superar as nossas próprias dificuldades, do olhar para si mesma e se ver como um ser iluminado... É uma percepção muito sutil, mas que trabalha em nossas mente a favor desse autoconhecimento, que muitas vezes nós mesmos nos colocamos numa prisão mágica quando não acreditamos em nós mesmos.
Para a criança a prisão mágica é uma forma de impedimento de atingirmos os nossos objetivos.
Eu espero que as crianças possam se verem como protagonistas de suas próprias histórias, que criem suas histórias vivenciando uma infância feliz e criativa.
6 - Como foi escrever sobre violência doméstica para crianças sem retirar delas a delicadeza, a fantasia e a esperança próprias da infância?
Marina: - Escrever sobre violência doméstica foi muito difícil porque é um assunto muito delicado, complexo, não pode ser dito ou escrito sem esse cuidado, é preciso palavras sem criar mais dores do que já criado, e para escrever para crianças sobre violência doméstica é preciso entrar no mundo delas, ter um cuidado com essa mente que ainda está em formação, usar palavras que tragam aconchego, esperança e amor, esse acolhimento que a criança precisa para entender que a amamos e queremos cuidar delas com todo esse amor e compreensão que merecem. As crianças vivenciam as histórias com encantamento, elas reconhecem a magia, entram na história e se alegram com os personagens, escrever dentro dessa fantasia facilita a reflexão delas sobre muitos momentos que vivem sem o uso de termos ou palavras difíceis, quanto mais suave e dócil, melhor será essa reflexão sem tocar de forma dolorosa a reflexão que queremos alcançar.
7 - Você diz que, durante uma mediação de leitura, precisamos estar atentos aos sinais emitidos pelas crianças. O livro já provocou alguma reação, pergunta ou relato de uma criança que tenha marcado você?
Marina: -Algumas pessoas que leram a história se viram através dos personagens, e se reconheceram como pessoas que superaram suas diversidades através desse autoconhecimento e cuidado com a sua autoestima, se viram como pessoas boas num processo de aprendizado, as crianças que leram e falaram sobre o livro, elas gostaram da história, se viram como a Cila, que querem brilhar como a personagem, viram uma motivação, perceberam a violência, comentaram sobre o que já viveram...então, eu vejo a história como uma história terapêutica, eu fico feliz ao ter essa resposta dos leitores, eu me sinto motivada em mostrar ao leitor que existem histórias lindas a serem lidas e vividas.
8 - Até onde deve ir o papel de quem faz a mediação dessa leitura? Como pais, professores e educadores podem acolher uma criança quando percebem que aquela história despertou algo mais profundo?
Marina: - A criança sempre se desperta para histórias, ela sempre está disposta a ouvir...A infância é a fase mais importante da vida de todos nós, porque é o começo da nossa história, é quando estamos vulneráveis aos conhecimentos que chegam, é o começar a pensar por si, a se ver através do olhar do adulto, durante a mediação da história deve haver a confiança mútua, a criança precisa ver que pode falar o que quiser, falar sobre o que achou da história, a parte que ela não gostou, que personagem ela gostou, se ela tem amigos ou pessoas conhecidas que se parecem com algum personagem, é uma conversa simples sobre o olhar da criança, são perguntas que deverão ser orientadas sem persuasão... Uma mediação dócil mas analítica, sem constranger, e tudo que acontecer depois disso é sempre fruto dessa percepção, é preciso deixar claro para a criança que ela está segura ao seu lado, e agir apoiando a criança positivamente sempre ,é importante estar ao lado da criança para ouvir.
9 - Amor, amizade, perdão e sensibilidade aparecem como elementos importantes da obra. Quando falamos de violência doméstica, como abordar o perdão sem transmitir à criança a ideia de que ela deve aceitar, esconder ou normalizar uma violência?
Marina: 9 - Para qualquer um perdoar é uma atitude difícil, principalmente quando há uma agressão que vai além do que imaginamos.
Um dia de fada, é um livro que vai além , porque é uma história sobre recomeços, do olhar para dentro.
A violência é estrutural, e deve ser entendida em todas as suas formas, em todos os seus aspectos.
Quando eu falo no livro sobre o perdão também entendemos que o primeiro a ser beneficiado pelo perdão , somos nós mesmos.
O perdão não apaga o passado, e nem impede outros erros, ele só mostra a nós mesmos quem somos, se somos capazes de perdoar, e que há consequências sobre tudo que fazemos , a punição do pai na história, é estar preso na a própria prisão que ele criou, que ele só estaria livre quando percebesse o mal que ele causou, e sentir o peso da consequência.
É importante que as crianças entendam que o perdão não é aval para continuar com os erros, por isso é preciso mostrar que todo mal que fazemos a alguém, somos responsáveis por isso, estar preso em sua própria prisão mágica, foi a condição que a personagem precisou para entender o mal que ele causará a todos a sua volta.
A violência doméstica é um ato que deve ser discutido, assim como os outros tipos de violência, e que sempre há uma violência que muitas vezes não percebemos, não existe brincadeira, piadas sobre isso, é um assunto que é vivido por milhares de pessoas, e quando a criança lê um livro infantil que fala sobre violência, ela deve perceber o que é certo e o que é errado...A criança sente a necessidade de falar e compreender que ao se expressar nós a ouviremos com carinho e afeto, esse é o maior valor da literatura infantil, é poder transmitir todo esse cuidado através de histórias, e falar sobre o perdão em "Um dia de fada" , é poder dizer à criança que perdão não pode significar normalizar a violência mas deve significar a cura e renovação a começar por nós mesmos. O perdão deve dar significado "isso não pode mais se repetir" ,por ninguém. O outro, o causador da violência deve entender que é preciso ser responsabilizado, e que o perdão é apenas um ato de compaixão e não de aceitação ou mesmo "está tudo bem", porque não é assim a justiça entende. E tudo isso deve ser sempre muito bem entendido pelo mediador para a compreensão da criança, porque a criança sempre se expressa, seja através de palavras, gestos ou mesmo a falta deles... Toda comunicação tem o seu jeito, mesmo que pareça invisível. Se a criança não fala, o corpo dela fala... De alguma forma...
Um dia de fada, tem um final feliz, porque eu achei necessário dar continuidade a essa história.
10 - Se “Um Dia de Fada” pudesse chegar hoje às mãos de uma criança que vive uma situação difícil dentro de casa, o que você gostaria que ela sentisse ao fechar a última página?
Marina- Como escritora, ser lida é uma grande recompensa, e uma criança que vive numa situação no seu lar com violência doméstica jamais deve ser ignorada.
Um dia de fada, é um livro para trazer esperança, para as crianças se sentirem amadas e cuidadas, o mais importante é sentir que essas crianças estão sendo ouvidas, e tratadas com respeito.
Nenhum trabalho é mais importante que o outro, só precisamos respeitar que cada um tem seu papel no mundo .
Escrever livros infantis, é o meu ato de amor para essas crianças, e fazer com que elas se sintam amadas e que elas se amem como elas são, isso é minha motivação.
A minha maior alegria é saber que uma criança que lê o meu livro sinta esse cuidado, esse amor, que ela tenha esperança e possa sentir em algum momento a alegria de ser ela mesma, e que o mundo pode acolhe-la com esse amor!!!
Desejo que uma criança que vivencie alguma violência possa se expressar, possa ter alguém com quem possa contar e se apoiar...
Eu gostaria que nenhuma criança se sentisse sozinha ou desamparada, então, eu desejo aos pais, professores, cuidadores, que possam levar às nossas crianças toda a paz que elas merecem, que cuidem e cultivem o melhor que essas crianças têm, e melhorem-se para que essas crianças tenham bons exemplos a serem seguidos.