Ela era só uma menina que nasceu num dia
ensolarado, o dia estava tão quente que a mãe da menina precisou abrir as
portas e janelas à noite para sentir a brisa que atravessava a janela persiana
e a porta de madeira, feita com ipê amarelo, que seu pai construiu para dar um
charme.
A casa amarela da rua dos Berilos número um, a rua era
de pedras negras, numa rua sem saída, e nela havia apenas três casas, a da
menina, a casa da sua tia Maria e a casa de outro menino que era apenas três
meses mais velho que ela e se chamava Joaquim.
A casa da menina que nasceu em março era amarela
com as portas e janelas de madeira, na medida que a menina foi crescendo ela
foi criando vida na casa que antes haviam apenas o casal e um cachorro que
aparecia de vez em quando para comer a ração que o casal colocava na porta, com
um "tiquinho" de água.
A menina cresceu um pouquinho , a ruivinha
andava cambaleando, seus pais tentavam segurá-la, mas ela era uma menina
que nasceu para correr nos jardins do seu paraíso, que era a sua casa amarela,
os quartos eram enormes, tinham quadros de Tarsila, Portinari, e é claro,
os desenhos impressionistas da menina, na sala de estar e ainda tinha o sofá com uma colcha azul
cobrindo até os pés, também de madeira, que seu pai construiu, na verdade a casa
não era tão grande assim, mas para a menina, era uma casa enorme.
Havia uma cortina na sala, na altura da janela , bordada pela
avó que morreu um pouco antes da menina nascer, a senhorinha que morreu aos cento e quatro anos ,também tinha
o mesmo nome da menina ,Juliana.
A cortina era branca e tinha pequenas linhas que a menina arteira
desfiou, mas mesmo com o furo, a cortina balançava fazendo a menina rir, sempre
encima do sofá, encostado na parede , rente à janela , os olhos da garotinha brilhavam ao
ver os pequenos passarinhos posando num ipê amarelo que coloria o chão de
pedras negras da rua, as flores faziam um tapete amarelo, e Juliana impedia
todos de pisarem no tapete de flores, a sua teimosia fazia com que os vizinhos se acostumaram em não
pisarem na calçada da casa amarela.
Custou alguns anos para a menina aprender que
aquele paraíso dividiria sua atenção com a escola, que ela gostava, mas
não mais do que sua casa amarela.
O tempo passou tão rápido que aos sete anos de
idade , os seus cabelos alaranjados chamavam bastante atenção de seus vizinhos,
que ela apenas olhava com "rabo de olho", ela não era tímida, e nem
tão expansiva, ela apenas sorria para quem ela desejava, e não era muita gente.
Depois dos sete anos , a menina ruiva chamada Juliana cismou
de usar uma bota de lona, ela não tirava a bota do pé, que combinava com as
cores da sua casa, era um amarelo tão vivo , que ela começou a ser apelidada de
“ menina ruiva da bota amarela”.
Na escola, era a menina ruiva da bota amarela ,
gostava de falar sobre as estrelas, se deixasse ela falava durante horas do
mesmo assunto, e não era qualquer assunto, era sempre sobre estrelas, os
planetas e as nebulosas, ela amava tanto as nebulosas que nas aulas de arte,
eram as estrelas com suas nuvens multicores que chamavam a atenção.
Um dia na escola, seus desenhos ganharam um
concurso, o prêmio seria um dia inteiro no parque, mas acredite, ela não quis
ir, preferiu ir para sua casa amarela e brincar com fadas, gnomos e duendes no
seu jardim mágico com suas flores falantes e um cachorro que aparecia de vez em
quando.
Ela poderia parecer uma menina bem esquisita,
mas na verdade era só mais uma menina no mundo que queria aprender mais sobre o
Universo e que se encantava com a natureza e seus mundos .
Seus vizinhos também cresceram com ela, quando a
sua tia Maria morreu, ela viveu seu luto, chorou tanto que seus olhos ficaram
miúdos, ela deixava flores na janela da
casa da tia Maria, se sentia arrependida de impedir a tia Maria pisar no tapete
amarelo em frente sua casa, Joaquim
aprendeu com ela que não podia só ficar assistindo TV e jogar futebol, então,
ela o ensinou a brincar de giz de cera, piquenique e subir em árvores em seu
quintal enorme.
Os dois passavam mais tempo juntos, e agora, era
uma menina ruiva da bota amarela e um menino que jurava que ia se tornar
astronauta, eles se tornaram amigos e ele passou a fazer pequenos filmes de suas aventuras no quintal da casa amarela,
eram tão amigos que cismaram que eram almas gêmeas, a amizade foi crescendo,
crescendo.
Quando se tornaram adolescentes, as brincadeiras mudaram, e a
casa mudou junto, seu pai queria mudar a casa de cor, Juliana o convenceu de
que amarelo era a cor do sol, e não era apropriado mudar a identidade da casa,
novamente o amarelo da casa se confundiu com as flores do ipê.
O tempo passou outra vez muito rápido, e como o
tempo é sempre imprevisível, ela cresceu tanto que a casa ficou pequena, as
paredes mudaram de cor, ficou um amarelo desbotado, as janelas e portas, o sofá
e os quadros, não desapareceram, mas ficaram mais velhos , iguais a menina, que
já não era uma menina. Ela tinha vinte seis anos quando se mudou de cidade para
fazer faculdade, ela seria uma enfermeira, queria curar o mundo, ela dizia que
o mundo precisava de pessoas que sabiam cuidar de pessoas.
Joaquim se tornou um astrônomo de verdade,
aparece de vez em quando, Juliana voltou a morar na casa amarela, na rua dos
Berilos número um...
Sabe, às vezes não precisamos mudar de casa para
ser feliz, a gente só precisa crescer um pouco para experimentar morar em
outras casas amarelas .Há casas de todas as cores, com todas as formas
possíveis... A casa amarela é como um coração, que guarda memórias da nossa
infância, dos sonhos que queremos alcançar.
A casa é um lugar onde povoam
sonhos, esperanças , às vezes lágrimas e sorrisos, é onde estamos sempre indo e
voltando...
Juliana cresceu e nunca esqueceu da sua casinha
amarela, onde ela aprendeu que crescer faz parte da vida, que a velhice é só
mais uma parte do caminho.
Seus pais deixaram a casa , se mudaram para as
estrelas, aonde ela viaja de vez em quando, cultiva ainda a saudade da sua
infância, do seu amigo Joaquim, das pedras da rua, que já não são as mesmas,
dos outros vizinhos que nunca se mudaram, só o Joaquim.
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