quinta-feira, 23 de julho de 2026

Conto :A menina ruiva e a casa amarela!!!

 

 



Ela era só uma menina que nasceu num dia ensolarado, o dia estava tão quente que a mãe da menina precisou abrir as portas e janelas à noite para sentir a brisa que atravessava a janela persiana e a porta de madeira, feita com ipê amarelo, que seu pai construiu para dar um charme.

A casa amarela da rua dos  Berilos número um, a rua era de pedras negras, numa rua sem saída, e nela havia apenas três casas, a da menina, a casa da sua tia Maria e a casa de outro menino que era apenas três meses mais velho que ela e se chamava Joaquim.
A casa da menina que nasceu em março era amarela com as portas e janelas de madeira, na medida que a menina foi crescendo ela foi criando vida na casa que antes haviam apenas o casal e um cachorro que aparecia de vez em quando para comer a ração que o casal colocava na porta, com um "tiquinho" de água.
A menina cresceu um pouquinho , a ruivinha andava cambaleando, seus pais tentavam segurá-la, mas ela  era uma menina que nasceu para correr nos jardins do seu paraíso, que era a sua casa amarela, os quartos  eram enormes, tinham quadros de Tarsila, Portinari, e é claro, os desenhos impressionistas da menina, na sala de estar e ainda  tinha  o sofá  com uma colcha azul cobrindo até os pés, também de madeira, que seu pai construiu, na verdade a casa não era tão grande assim, mas para a menina, era uma casa enorme.

Havia uma cortina na sala, na altura da janela , bordada pela avó que morreu um pouco antes da menina nascer, a senhorinha que  morreu aos cento e quatro anos ,também tinha o mesmo nome da menina ,Juliana.

A cortina era branca e  tinha pequenas linhas que a menina arteira desfiou, mas mesmo com o furo, a cortina balançava fazendo a menina rir, sempre encima do sofá, encostado na parede , rente à  janela , os olhos da garotinha brilhavam ao ver os pequenos passarinhos posando num ipê amarelo que coloria o chão de pedras negras da rua, as flores faziam um tapete amarelo, e Juliana impedia todos de pisarem no tapete de flores, a sua teimosia fazia  com que os vizinhos se acostumaram em não pisarem na calçada da casa amarela.
Custou alguns anos para a menina aprender que aquele paraíso dividiria sua atenção com a escola, que ela gostava, mas  não mais do que sua casa amarela.
O tempo passou tão rápido que aos sete anos de idade , os seus cabelos alaranjados chamavam bastante atenção de seus vizinhos, que ela apenas olhava com "rabo de olho", ela não era tímida, e nem tão expansiva, ela apenas sorria para quem ela desejava, e não era muita gente.

Depois dos sete anos , a menina ruiva chamada Juliana cismou de usar uma bota de lona, ela não tirava a bota do pé, que combinava com as cores da sua casa, era um amarelo tão vivo , que ela começou a ser apelidada de “ menina ruiva da bota amarela”.
Na escola, era a menina ruiva da bota amarela , gostava de falar sobre as estrelas, se deixasse ela falava durante horas do mesmo assunto, e não era qualquer assunto, era sempre sobre estrelas, os planetas e as nebulosas, ela amava tanto as nebulosas que nas aulas de arte, eram as estrelas com suas nuvens multicores que chamavam a atenção.
Um dia na escola, seus desenhos ganharam um concurso, o prêmio seria um dia inteiro no parque, mas acredite, ela não quis ir, preferiu ir para sua casa amarela e brincar com fadas, gnomos e duendes no seu jardim mágico com suas flores falantes e um cachorro que aparecia de vez em quando.
Ela poderia parecer uma menina bem esquisita, mas na verdade era só mais uma menina no mundo que queria aprender mais sobre o Universo e que se encantava com a natureza e seus mundos .
Seus vizinhos também cresceram com ela, quando a sua tia Maria morreu, ela viveu seu luto, chorou tanto que seus olhos ficaram miúdos, ela deixava flores na  janela da casa da tia Maria, se sentia arrependida de impedir a tia Maria pisar no tapete amarelo em frente  sua casa, Joaquim aprendeu com ela que não podia só ficar assistindo TV e jogar futebol, então, ela o ensinou a brincar de giz de cera, piquenique e subir em árvores em seu quintal enorme.
Os dois passavam mais tempo juntos, e agora, era uma menina ruiva da bota amarela e um menino que jurava que ia se tornar astronauta, eles se tornaram amigos e ele passou a fazer pequenos filmes  de suas aventuras no quintal da casa amarela, eram tão amigos que cismaram que eram almas gêmeas, a amizade foi crescendo, crescendo.

Quando se tornaram adolescentes, as brincadeiras mudaram, e a casa mudou junto, seu pai queria mudar a casa de cor, Juliana o convenceu de que amarelo era a cor do sol, e não era apropriado mudar a identidade da casa, novamente o amarelo da casa se confundiu com as flores do ipê.
O tempo passou outra vez muito rápido, e como o tempo é sempre imprevisível, ela cresceu tanto que a casa ficou pequena, as paredes mudaram de cor, ficou um amarelo desbotado, as janelas e portas, o sofá e os quadros, não desapareceram, mas ficaram mais velhos , iguais a menina, que já não era uma menina. Ela tinha vinte seis anos quando se mudou de cidade para fazer faculdade, ela seria uma enfermeira, queria curar o mundo, ela dizia que o mundo precisava de pessoas que sabiam cuidar de pessoas.
Joaquim se tornou um astrônomo de verdade, aparece de vez em quando, Juliana voltou a morar na casa amarela, na rua dos Berilos número um...
Sabe, às vezes não precisamos mudar de casa para ser feliz, a gente só precisa crescer um pouco para experimentar morar em  outras casas amarelas .Há casas de todas as cores, com todas as formas possíveis... A casa amarela é como um coração, que guarda memórias da nossa infância, dos sonhos que queremos alcançar.
A casa é  um lugar  onde povoam sonhos, esperanças , às vezes lágrimas e sorrisos, é onde estamos sempre indo e voltando...
Juliana cresceu e nunca esqueceu da sua casinha amarela, onde ela aprendeu que crescer faz parte da vida, que a velhice é só mais uma parte do caminho.
Seus pais deixaram a casa , se mudaram para as estrelas, aonde ela viaja de vez em quando, cultiva ainda a saudade da sua infância, do seu amigo Joaquim, das pedras da rua, que já não são as mesmas, dos  outros vizinhos que nunca se mudaram, só o Joaquim.

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